Por Priscila Campanholo
Em um cenário marcado por múltiplas linguagens, demandas digitais e transformações aceleradas, alfabetizar e letrar vai muito além de ensinar a decodificar palavras. Significa formar sujeitos capazes de dialogar com os textos, com os outros e consigo mesmos. Não se trata apenas de aprender o código, mas de habitar o universo da linguagem.
Na formação de professores, essa compreensão é decisiva. Alfabetizar é, sim, ensinar o sistema de escrita; mas letrar é abrir portas para que a leitura e a escrita se tornem práticas sociais vivas, significativas, presentes no cotidiano. Como defende Magda Soares, “não basta saber ler e escrever — é preciso usar a leitura e a escrita para atuar no mundo”.
Defendemos a importância de propostas pedagógicas que articulam a dimensão técnica da alfabetização com a dimensão cultural do letramento. Não se trata de escolher entre uma ou outra, mas de integrá-las para que os estudantes compreendam que aprender a ler não é apenas reconhecer sons, letras e palavras, mas compreender e atribuir sentidos, fazer escolhas, levantar perguntas e imaginar outros mundos possíveis.
O texto só existe quando alguém o lê. E o leitor lê para descobrir, para sentir, para se surpreender. A alfabetização, quando pensada a partir do letramento, nos convida a ir além do código, pois permite que a criança experimente a linguagem como um espaço de pertencimento, como um lugar de encontro entre sua voz e as vozes do mundo.
Formar professores para essa abordagem integrada é apostar na construção de práticas pedagógicas que ampliem repertórios, provoquem perguntas e convidem os alunos a se reconhecerem como autores de sentidos. Alfabetizar letrando é, portanto, formar leitores e escritores do mundo — sujeitos críticos, sensíveis e capazes de imaginar novos futuros.

